O entardecer em Brasília é lindo, especialmente, no outono. Aprecio esse espetáculo todos os dias, quando vou ao encontro dos meus alunos, que depois de um dia inteiro de trabalho, ainda encaram o terceiro expediente, para conquistar melhores oportunidades na vida.
Encantada com as variações da luz e da sombra, ouvindo boa música, pela estrada afora vou bem sozinha, pensando na vida. Meu caminho para o trabalho é o estresse em sentido contrário: enquanto eu, desestressada, vou para a labuta, os outros, já estressados, buscam o repouso do lar.
Enquanto o Sol desce e a Lua sobe, como se eu estivesse num comercial de carro, pareço alheia às doenças da vida moderna que em Brasília também já estão disponíveis a quem delas queira usufruir.
De dentro do meu carro, isolada do barulho lá fora, observo o trânsito caótico e comparo-o à vida diária, com a relação entre as pessoas. Tudo parece um enorme caleidoscópio, entrópico, desorganizado, cujos padrões imprevisíveis, aleatórios, nunca se repetem. É a divertida impermanência, que tem lá sua previsibilidade nos processos e fenômenos que se reproduzem com exatidão e frequência, como a alvorada e o crepúsculo, o nascimento e a morte e a dança das estações.
Escolho o fundo musical e solto a voz, batuco no volante e até danço, quando o trânsito está parado. Cada música evoca um sentimento. Viajo nas ondas sonoras, pensando nos meus valores e na importância que dou para cada coisa. Todos os dias, enquanto as pessoas brigam por seus espaços na rua como se lutassem por suas vidas, vejo como, coletivamente, falta-nos civilidade, respeito, consciência de grupo, tolerância e cooperação, como é importante aprender sobre a ousadia, conhecer o nível pessoal de raiva, agressividade e atrevimento, lidar com a ansiedade e a frustração (e as exigências de poder do ego) e cultivar a paciência.
Enquanto a música toca e o Sol dirige-se ao poente, o lusco-fusco atrapalha a visão, um motorista vem por cima do jardim, tentando furar o trânsito e um motoqueiro vem passando entre os carros quando alguém muda de faixa bruscamente, sem sinalizar. Alguém me pede passagem e eu cedo, mas o carro que vem atrás quase bate em mim. Tenho aversão a engarrafamento, especialmente o do fim de tarde outonal, com o Sol baixando na dianteira e, então, procuro colaborar para o trânsito melhorar.
Entre o belo – mas ofuscante – entardecer do outono e o trânsito, meus olhos não param, observando tudo atentamente. Faço parte desse caleidoscópio aleatório que se forma na pista. Posso movimentá-lo e posso escolher entre fazê-lo de modo egoísta, ou de forma cooperativa e responsável, quiçá até divertida. Meu comportamento no trânsito revela como lido com minhas relações.
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