A Vida é um caleidoscópio. Tudo está em constante movimento, é impermanente, multifacetado e reflete a luz e a cor de diferentes formas e em diversas direções... Nós, pessoas, somos uma síntese incrivelmente bela do universo individual e os universos alheios, que se esbarram, se incorporam, se atraem, se repelem, se mesclam, se refletem, como no caleidoscópio.
Esses universos são ricos em sentimentos e emoções, ideias, valores, princípios, crenças e, daí, um dos mais complexos desafios da nossa jornada por aqui, nesse mundo (vasto mundo velho sem porteira), é aprendermos a conviver com as diferenças, respeitar as individualidades. Será por isso que geramos tantos atritos, conflitos e desavenças, experimentamos sentimentos amargos e doloridos, convivemos com a frustração, perdemos, choramos, morremos e renascemos muitas vezes?
No dinamismo desse convívio, embora uma boa parte da humanidade procure o aprimoramento pessoal, há outra parcela tão grande quanto (ou até maior) de pessoas com enorme necessidade de poder (e controle) sobre o outro. Há quem se arrogue o direito de determinar como cada um deve viver; o que pode pensar, falar, fazer; como, quando, em que condições (e se) tem permissão para ser quem é... Tudo isso, segundo rígidos critérios de bem e mal, estabelecidos a partir intolerância de quem define tais parâmetros. Isso é tirania. É contrário à Vida, porque é um atentado ao Ser.
Uma boa porção da humanidade tem alteridade, respeita e valoriza o outro, porque tem boa constituição da individualidade, procura o autoconhecimento e a harmonia interior. Entretanto, por outro lado, há quem tenha necessidade de negar o próximo, pela diminuição, desqualificação, desempoderamento, humilhação... Isso pode ser manifestado de muitas maneiras, como não admitir a manifestação de sentimentos e emoções, como medo, raiva, mágoa, indignação.
Dizem que quem dá vazão à emoção (especialmente à raiva e à mágoa) perde a razão. Como assim? Perde-se a capacidade de raciocinar, ou o direito de estar certo? É preciso, então, fingir, reprimir-se, submeter-se, para poder raciocinar e/ou estar certo? Emoção e razão, sentimentos e pensamentos são incompatíveis? Por acaso, a razão não está com quem a tem? A Verdade abandona quem expressa as emoções e os sentimentos?
Sabemos que não é bom alimentar a raiva e a mágoa, mas a repressão, a frustração engolida, a submissão à injúria, enfim, podem gerar ressentimentos, recalques, traumas difíceis de serem diluídos ou dissipados. Como, então, perdoar e esquecer, se no fígado já se alojou a amargura da dor infringida por outra pessoa que se sente no direito de agir contra a dignidade do Ser?
Fingir que está tudo certo não pode ser saudável, porque não é verdadeiro. Porque é ilógico, não pode ser racional e, logo, não pode ser bom. É óbvio que decidir e agir sob o efeito de tanta ilusão não pode resultar em sinceridade, realidade, verdade, nem em felicidade, que exige o máximo respeito às emoções e sentimentos.
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