FILHOS MELHORES PARA O MUNDO

Os começos de ciclo são muito interessantes. Parecem apagar o que ficou para trás, como se a Vida fosse escrita a lápis em uma única página, num texto que pudéssemos apagar sempre que a página acabasse. Então, poderíamos apagar as memórias indesejáveis e manter apenas as agradáveis, ou apagaríamos todas, para escrever na página em branco, tudo outra vez…

Mas não é assim que funciona, sabemos. Embora possamos, a cada dia, limpar de nosso corpo, de nossa mente, de nosso coração e de nosso espírito tudo o que acumulamos a mais, o fato é que nossas experiências são cumulativas e progressivas. Não mínguam, nem retroagem, porque o amadurecimento é inevitável. Muita gente, porém, não se preocupa com essa higiene interna e vai dormir e acorda com as mesmas sujeirinhas da véspera. Contudo, uma porção de outras pessoas tem essa preocupação e é por isso que o mundo conserva certo grau de harmonia que se amplia mais do que se reduz, na busca constante de equilíbrio.

O interessante é que, apesar dos fatos em nossas vidas continuarem exatamente como foram quando aconteceram, quando limpamos a mente, o coração e o espírito, a nossa percepção, o nosso entendimento daqueles fatos – já históricos – modifica-se e transforma-se em crescimento, na maioria das vezes. Isso acontece graças a um fenômeno simples e muito comum: o aprendizado que, por sua vez, gera transformação.

Há muitos caminhos para o aprendizado. Aliás, a Vida sempre apresenta inúmeros caminhos a seguir, mesmo quando não vislumbramos os objetivos que perseguimos, caso tenhamos em vista um objetivo. Sim, porque há pessoas que vivem a vida como a Vida vem, que fazem o caminho ao caminhar, sem traçar um roteiro prévio. Isso também é bom, embora deixe muita gente exasperada, sobretudo aquelas pessoas que precisam de marcos e referências externas para viver.

Quando nascemos (aliás, desde que somos gerados), começamos a vivenciar uma grande aventura que nunca sabemos como terminará. Nascemos dentro de um contexto social, histórico e cultural (e às vezes religioso, também), que nos oferece uma série de parâmetros, de modelos, valores e princípios que utilizamos (e mais tarde, muitos deles descartamos ou ressignificamos), que nos chegam por nossas famílias, pela escola, pelo convívio com os integrantes dos grupos sociais que integramos, o que inclui, em muitos casos, a religião de nossos ancestrais.

Esse compartilhar é o processo de educação. Há a educação informal, a da família e do convívio com os integrantes dos grupos sociais que integramos, e há a educação formal, a da escola, em geral escolhida pelos pais, normalmente em consonância com os padrões familiares. Uma família precisa estar completamente desligada da importância da integração família-escola para escolher, para seus filhos, uma escola destoante daquilo em que acredita ou que pratica. O problema é que isso acontece mais do que deveria, por que há famílias que não verificam as bases filosóficas e ideológicas (e também religiosas, em alguns casos) que norteiam a proposta pedagógica que embasará a formação de seus filhos e acabam por permitir o surgimento de conflitos que, muitas vezes, são de difícil solução.

No Brasil, por lei, a educação é um dever do Estado e da família, o que significa que escola e família devem estar em constante interação, para que as crianças tenham a melhor educação possível. Cabe à escola formar a pessoa, prepará-la para o exercício da cidadania e qualificá-la para o trabalho, o que envolve as dimensões cognitiva, social e a afetiva (e suas ramificações), tudo isso entrelaçado por fundamentos filosóficos e ideológicos que definirão o fazer pedagógico, além, é claro, da questão religiosa, no caso das escolas confessionais.

Porém, nem sempre essa integração acontece. São inúmeros os casos de pais e mães que esperam que a escola realize funções que são da família, o que é contrário ao compromisso assumido por cada um, perante a Vida, ao se gerar um filho. Muitas pessoas parecem não ter a menor consciência desse compromisso, ou que significa trazer alguém à Vida, dar alguém à Luz. Ter filhos é muito mais do que dar continuidade a si, é participar ativamente da Criação e isso envolve uma grande responsabilidade, da qual não trataremos agora.

A família é o primeiro contato da criança com o mundo (aliás, ainda na fase uterina, enquanto é gestada pela mãe). As bases de sua relação com a Vida encontram-se em seu DNA e também no conjunto das experiências compartilhadas familiarmente, independente do formato da família ou de seu grau de agregação (ou desagregação). Independente de seu tamanho, a família é também o primeiro núcleo de coletividade que a criança conhece e descobre que não está só. É também no compartilhamento das experiências familiares que a criança forma sua identidade e descobre-se como um ser único (indivíduo, portanto). Ou seja, é na família que a criança aprende que há uma relação entre o Eu e o Outro, entre o mundo interno e o externo, e onde se adquire a percepção mais ampla de que somos seres individuais que interagem coletivamente (e que as ações de uns interferem nas ações dos outros). Essa interação mútua é regulada por conceitos, princípios, valores, normas, regras, leis, com as quais a pessoa aprende a lidar (ou não) no contexto familiar. Respeitar, desacatar, manter tudo isso ou transformar é uma escolha individual, porém.

O mundo moderno (pelo menos nesse lado “ocidental” do planeta) é mais individualista que coletivo, mais materialista do que espiritualista, mais racional do que afetivo e emocional (aliás, as emoções, muitas vezes, parecem ser “inimigas” da razão). A busca pela satisfação imediata do ego, então, toma o lugar da compreensão de que há o Outro e que há um amanhã. O parecer ser e o ter predominam sobre o ser e, claro, isso faz com que as referências pessoais sejam externas, dificultando o contato com a Essência mais verdadeira do Ser. Contudo, por mais que se queira, não há mundo lá fora que caiba dentro do Ser, que o possa preencher, se o Ser for vazio em sua Essência. Ao contrário, é a Essência do Ser que deve transbordar para o mundo ao redor.

A partir de tal compreensão, podemos educar nossos filhos no sentido de torná-los melhores pessoas para o mundo, e essa é a chave para se criar um mundo melhor para nossos filhos. Viver em harmonia, integrar a coletividade e conviver com o outro supõem a consciência de que há o Outro. Em Essência, cada Ser é único e, cada pessoa é a soma única de suas experiências, mas é também o resultado de suas interações com os outros “eu” ao redor e. tudo o que cada pessoa faz, por menor que seja, afeta tudo em volta, ainda que não se possa verificar isso de imediato, porque somos todos Um.

Tudo isso requer amor, muito amor, paciência, generosidade, compreensão, firmeza, propósito, gratidão e tudo o mais que vem junto: dizer não quando necessário (mas explicando porque), lidar com a frustração, com a culpa e com o medo, com o perdão e embalar tudo isso com a compaixão, o acolhimento, a ternura, a alegria.

Não criamos nossos filhos para nós, mas para a Criação, para a Vida. Ninguém vive sozinho e todos nós participamos do Universo, em comum união. Para que nossos filhos compreendam isso, cada um de nós deve compreender isso também, para que o “mundo moderno” seja um mundo de bem-estar, alegria e amor.

Esse não é bom começo para um novo ciclo?

 

Este artigo foi escrito por Marcia Godoy dos Santos-Psicopedagoga, Professora de Ensino Superior, Taróloga e Numeróloga em 10 de fevereiro de 2012 às 1:57, e está arquivado em Comportamento 1 e Especial do Mês. Siga quaisquer respostas a este artigo através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta ou fazer um trackback do seu próprio site.

1 Comentário »

  1. Parabéns, a sua abordagem em:
    O MITO DO MAL ALUNO, é a mais pura verdade.
    Aliás, o que acabo de ler (FILHOS MELHORES PARA O MUNDO), mostra também o nível da sua sensibilidade e conhecimento.
    Um grande abraço.

    Comentado por Izabel — 10 de fevereiro de 2012 @ 12:29

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