O fim do ano chega sempre com uma cobrança: o dever de criar novas estratégias para o bem viver. Avaliamos quem somos, tudo que desejamos. Nesse momento, o estresse pode dominar a cabeça, pois queremos iniciar o novo período sem pendências. Outros preferem ignorar os débitos, e esperam uma vida diferente depois do réveillon. Seria isso possível?
Os afazeres se multiplicam durante esse período, inspirando um quê de atraso. Paralelamente, crescem as cobranças de realização pessoal: o comércio pede que consumamos novidades, somos cobrados a reavivar relações distantes, temos de mostrar que estamos melhores do que no ano passado… É difícil dar conta de todas as tarefas, agradar a todos – fantasia sobrehumana. Os sintomas se agravam com o perfeccionismo ou a ansiedade. Ficamos frustrados com a impossibilidade atender a tantos compromissos.
A consciência da limitação humana ensina a definir prioridades: o que merece mais atenção no momento? Só assim entendemos que muitas cobranças às quais nos submetemos pouco acrescentam à vida. Seguimos impulsivamente a um fluxo de demandas, que esvaem nossa energia vital, sem perceber que tais tarefas pouco contribuem com o nosso sentido existencial. Este só se revela quando observamos os nossos valores individuais.
O ano novo pode alavancar a promessa de uma vida nova. Motivados por uma crença mágica de renovação, muitos se lotam de expectativas. Querem solução dos males à meia-noite do dia primeiro. Esquecem que a vida é uma sequência de fatos, pensamentos e decisões. É uma peça que estreia sem ensaio, onde somos atores que aprendem a desempenhar seus papeis na medida em que a trama avança. Muitas vezes, na confiança de que o Diretor mandará a deixa na hora certa, somos negligentes com o esforço de melhorar o desempenho. Fugir desse compromisso é a porta para a culpa: sobre si, sobre Deus ou sobre o mundo.
A prospecção de metas precisa ser vista com cautela, já que dependerá da dedicação e do comprometimento que temos com nossos sonhos. Planos só funcionam quando desenvolvemos estratégias para validá-los e efetivá-los. E, para merecer tal dedicação, eles precisam ser louváveis, viáveis, edificantes e transformadores.
O autoconhecimento é o caminho que protege das falsas promessas de felicidade. Uma imagem de que ser feliz é não ter problemas paira sobre o pensamento mais ingênuo. Quando, na verdade, a realização está em conseguir ir além da adversidade, transformando-a em uma estratégia de fortalecimento. Não enfrentar a vida é a causa da melancolia, da depressão.
Para atingir o bem estar, precisamos saber quem somos. Aprender a lidar com qualidades e defeitos de forma construtiva, olhando para si com menos crítica e mais respeito. Na medida em que isso se dá, com plenitude e maturidade, ganhamos novas ferramentas para o desenvolvimento. Isso é responsabilizar-se sobre o próprio futuro, em vez de simplesmente desejá-lo.
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