No dia a dia, é comum escutarmos frases como “não importa o tipo de parto, o importante é nascer com saúde”, ou “eu conheço várias pessoas que fizeram cesariana e todos sobreviveram, mãe e bebê, então porque eu me submeteria a um parto normal?”. Até mesmo as mulheres que tiverem seus partos normais, mas cheios de intervenções no corpo e na alma, ouvem frequentemente: “você queria um parto humanizado? porque essa frescura? Isso é modismo, o importante é sobreviver!”.
Será que o importante é realmente apenas sobreviver? É isso mesmo que precisamos, de uma geração inteira de sobreviventes?
É claro que sobreviver é fundamental, mas eu acredito que, como mulheres podemos vivenciar e proporcionar muito mais do que isso (para nós e para nossos filhos) nesse momento tão especial e único que é o nascimento.
Para as mães, é evidente que um parto normal evita as consequências de uma cirurgia desnecessária, proporciona uma recuperação imediata, um respeito à fisiologia e consequentemente favorece o estabelecimento do vinculo e da amamentação. Mas, mais do que isso, permite a vivência de uma experiência rica e transformadora. O parto, visto sob essa perspectiva, se torna um grande ritual de passagem, um momento de plenitude e intensa conexão com as forças da natureza e com o poder do feminino. Um ritual que nos prepara para os desafios da maternidade e que nos traz um grande auto conhecimento enquanto mulheres.
Para os bebês, podemos citar diversos estudos que demonstram o forte impacto que o período do nascimento exerce sobre o futuro daquele ser que acaba de nascer. Além das óbvias vantagens fisiológicas que um parto natural oferece para o bebê (como respeitar seu tempo de amadurecimento no útero e assim evitar a prematuridade tardia, melhor capacidade respiratória, contato com a flora bacteriana da mãe, etc), um parto “humanizado” pode fazer milagres para a psiquê do futuro adulto.
Em primeiro lugar, porque passar por toda a experiência do trabalho de parto promove um grande estímulo sensorial ao bebê e o prepara gradativamente para a transição entre a vida intrauterina e o mundo aqui fora. Além disso, favorecemos o vínculo, o contato precoce com a mãe e a amamentação na primeira hora de vida. Diversos estudos também demonstram que muitos distúrbios estão diretamente relacionados ao que ocorre durante o período do nascimento, tais como: drogadição, autismo, comportamento anti social, anorexia nervosa e até mesmo propensão à violência, criminalidade e suicídio. É claro que todos esses distúrbios possuem causas multifatorais e não podemos reduzi-los ao nascimento, mas a moderna fisiologia nos dá dicas preciosas da importância dos hormônios liberados durante o trabalho de parto: os chamados hormônios do amor!
Por tudo isso e por dezenas de outros motivos que reitero: sobreviver é fundamental, mas é muito pouco perto do que a experiência do nascimento poderia significar para mães, bebês e famílias!
Nota1: É importante lembrar que não está sendo criada simplesmente uma dicotomia entre Parto Normal (que pode ser absolutamente traumático) X Cesariana (esta sempre muito bem vinda em caso de necessidade)! Estamos falando de um parto verdadeiramente HUMANIZADO X uma cesariana DESNECESSÁRIA.
Nota2: Se a preocupação é realmente com a sobrevivência, é evidente que respeitar um evento fisiológico traz muito mais segurança do que se submeter à uma cirurgia de grande porte como uma cesariana (que aumenta consideravelmente o risco de complicações e morte para mães e bebês).
No próximo artigo, será explicada a diferença entre os diversos “tipos de parto” (normal, natural, humanizado, hospitalar, domiciliar, e cesariana).
Muito bom o texto, não importa apenas sobreviver, é preciso vivenciar!
Comentado por Julia — 15 de fevereiro de 2012 @ 15:32