ESPERANÇA E FÉ

Desde que me entendo por gente, ouço que “a esperança é a última que morre”. Ora, pois, se a esperança é a última que morre, então ela morre (ainda que por último e após esgotadas todas as outras possibilidades precedentes). Também, se a esperança é a última que morre – e ela morre antes de mim – das duas, uma: ou ela não é a última que morre e o ditado está errado; ou o ditado está certo e, depois de morta, a esperança transmuta-se em algo sobrenatural, divino, talvez, que me permite permanecer viva, mesmo depois de morta toda esperança...

Este é um dilema que resolvo, em mim, pela segunda possibilidade: esperança morta é esperança transmutada.

Mas, em que se transmuta a finada esperança? Em fé, pelo menos em mim, nessa minha percepção andarilha e curiosa de mundo, incansável e inquieta.

Na esperança, almejo algo, e quase suspirante, otimista, às vezes bem iludida, fantasiosa, talvez, anseio que meu desejo seja realidade. E isso me alimenta e impede que vivencie a frustração, a derrota, a perda. Quando uma pessoa luta contra o fim de um relacionamento ou quando ainda não se desapegou de quem partiu para outras caminhadas, a esperança é o álibi para a pessoa ainda se debater contra o óbvio e insistir em algo que já não existe mais, mas que se quer restaurar de qualquer modo. Então, de mãos dadas com a ilusão, a esperança fantasia situações ideais de reconciliação, romantismo e felicidade que existem, apenas e tão somente, na imaginação de quem sonha e que entra em desespero, se a esperança morre.

Por isso, prefiro a ideia de que a esperança, uma vez morta, transmuta-se em fé. A desilusão é dolorosa e a frustração pode exaurir nossas forças. Por outro lado, aceitar que a esperança morreu e permitir que a alma viva seu luto, sem brigar com a realidade, sem resistir ao inevitável (“desapega que dói menos”) é o primeiro passo para a descoberta da vida-após-a-morte-da-esperança: o desabrochar da fé viva, infinita, indivisível, única e imortal.

Então, sentimos que ainda respiramos, ainda queremos sorrir, ainda queremos prosseguir e descobrir novas possibilidades de realização, mesmo depois da devastação causada por tudo que nos matou a esperança. Descobrimos que não há por que desesperar e, reanimados, descobrimos que chegamos vivos à praia, a despeito do trágico naufrágio.

A transmutação da esperança morta em fé viva só é possível quando percebemos que somos muito mais fortes do que aquilo que não nos matou. Cabeça erguida, peito aberto (ainda que sangrando), continuamos em frente, alimentados por outro tipo de energia, por uma força contida em nós, esperando para ser despertada, que traz a certeza de que somos capazes. É quando, mesmo arfantes, respiramos fundo e seguimos firmes, porque sentimos a Luz interna, descobrimos que somos imortais seres divinos, dotados de fé, vivendo uma experiência humana, mortal, como qualquer esperança que um dia se vai...

 

Marcia Godoy

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